sábado, 3 de março de 2018

POESIAS REUNIDAS DE GIOCONDA BELLI - parte 2

A MÃE
A mãe
trocou de roupa.
A saia virou calça;
os sapatos, botas;
a pasta, mochila.
Já não canta cantigas de ninar,
canta canções de protesto.
Vai despenteada e chorando
um amor que a envolve e assombra.
Já não ama somente seus filhos,
nem se dá somente a seus filhos.
Leva suspensas nos peitos
milhares de bocas famintas.
É mãe de meninos maltrapilhos
de molequinhos que rodam pião em calçadas empoeiradas.
pariu a si mesma
sentindo-se — às vezes —
incapaz de suportar tanto amor sobre os ombros,
pensando no fruto de sua carne
— distante e sozinho —
chamando por ela na noite sem resposta,
enquanto ela responde a outros gritos,
a muitos gritos,
mas sempre pensando no grito solitário de sua carne
que é um grito a mais nessa gritaria de povo que a chama
e lhe arranca até os próprios filhos
de seus braços.
———-
SANGUE DE OUTROS
Leio os poemas dos mortos
eu que estou viva
eu que vivi para rir e chorar
e gritar pátria Livre ou Morrer
em cima de um caminhão
no dia em que chegamos a Manágua.
Leio os poemas dos mortos,
vejo as formigas sobre a grama,
meus pés descalços,
teu cabelo liso,
costas curvadas numa reunião.
Leio os poemas dos mortos
e sinto que este sangue com o qual nos amamos
não nos pertence.
———-
SEM PALAVRAS
inventei uma grande árvore,
maior que um homem,
maior que uma casa,
maior que uma última esperança.
Fiquei com ela durante anos
sob sua sombra
esperando que falasse comigo.
Eu lhe cantava canções,
abraçava-a,
coçava sua rugosa casca
entremeada de samambaias,
meu riso rebentava flores em seus galhos,
e a cada gesto meu cresciam-lhe folhas,
brotavam-lhe frutas…
Era minha como nunca nada foi meu,
mas não falava comigo.
Eu vivia atenta aos ruídos dela,
ouvindo seu suave esvoaçar de borboleta,
seu rangido de animal da selva
e sonhava com a voz dela como um lindo canto,
mas não falava comigo.
noites inteiras chorei a seus pés,
apertada entre suas raízes,
sentindo seus braços sobre mim,
vendo-a erguida sobre mim,
sabendo que pensava em mim,
mas não falava comigo…
Aprendi a cantar como pássaro,
a acender-me como vaga-lume,
a relinchar feito cavalo.
Às vezes me enfurecia e fazia com que caíssem
todas as suas folhas,
deixava-a nua e envergonhada
diante dos guanacastes,
esperando que — talvez — entendesse ter sido por mal,
como alguns homens,
mas nada.
Aprendi tantas coisas para poder lhe falar,
despi-me de tantas outras necessidades
que esqueci até como eu me chamava,
esqueci de onde eu vinha,
esqueci a que espécie animal eu pertencia
e fiquei muda e sempre-viva
— esperançosa —
entre seus galhos.
———-
EROS É A ÁGUA
Entre tuas pernas
o mar me mostra estranhos arrecifes
rochas erguidas corais altaneiros
contra a minha gruta de ostras concha madrepérola
teu molusco de sal persegue a corrente
a água cruza inventa barbatanas em mim
mar noturno de luas submersas
teu ondular brusco de polvo excitado
acelera minhas brânquias os latejos de esponja
os cavalos minúsculos flutuando entre gemidos
enredados em longos pistilos de medusa.
Amor entre golfinhos
dando saltos te lanças sobre meu flanco leve
te recebo sem ruído te olho entre borbulhas
teu riso envolvo com minha boca espuma
leveza da água oxigênio de tua vegetação de clorofila
a coroa de lua abre espaço ao oceano.
Dos olhos prateados
flui longo olhar derradeiro
e nos levantamos do corpo aquático
somos carne outra vez
uma mulher e um homem
entre as rochas.

CONSELHOS PARA A MULHER FORTE

Se és uma mulher forte
te protejas das hordas que desejarão
almoçar teu coração.
Eles usam todos os disfarces dos carnavais da terra:
se vestem como culpas, como oportunidades, como preços que se precisa pagar.
Te cutucam a alma; metem o aço de seus olhares ou de seus prantos
até o mais profundo do magma de tua essência
não para alumbrar-se com teu fogo
senão para apagar a paixão
a erudição de tuas fantasias.

Se és uma mulher forte
tens que saber que o ar te nutre
carrega também parasitas, varejeiras,
miúdos insetos que buscarão se alojar em teu sangue
e se nutrir do quanto é sólido e grande em ti.

Não percas a compaixão, mas teme tudo que te conduz
a negar-te a palavra, a esconder quem és,
tudo que te obrigue a abrandar-se
e te prometa um reino terrestre em troca
de um sorriso complacente.

Se és uma mulher forte, prepara-te para a batalha:
aprende a estar sozinha
a dormir na mais absoluta escuridão sem medo
que ninguém te lance cordas quando rugir a tormenta
a nadar contra a corrente.

Treine-se nos exercícios da reflexão e do intelecto.
Lê, faz o amor a ti mesma, constrói teu castelo
o rodeia de fossos profundos
mas lhe faça amplas portas e janelas.

É fundamental que cultives enormes amizades
que os que te rodeiam e queiram saibam o que és
que te faças um círculo de fogueiras e acendas no centro de tua habitação
uma estufa sempre ardente de onde se mantenha o fervor de teus sonhos.

Se és uma mulher forte
se proteja com palavras e árvores
e invoca a memória de mulheres antigas.

Saberás que és um campo magnético
até onde viajarão uivando os pregos enferrujados
e o óxido mortal de todos os naufrágios.
Ampara, msa te ampara primeiro.
Guarda as distâncias.
Te constrói. Te cuida.
Entesoura teu poder.
O defenda.
O faça por fazer.
Te peço em nome de todas nós.

(tradução de Jeff Vasques)

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