POESIAS REUNIDAS
DE GIOCONDA BELLI
[coletânea feita a partir de sites]
NOVA TESE FEMINISTA
(Gioconda Belli, tradução de Jeff Vasques)
Como te dizer
homem
que não te necessito?
Não posso cantar a liberação feminina
se não te canto
e te convido a descobrir liberações comigo.
Não me agrada a gente que se engana
dizendo que o amor não é necessário
-"tenha medo, eu tremo"
Há tanto novo que aprender,
formosos homens da caverna a resgatar,
novas maneiras de amar que ainda não inventamos.
Em nome próprio declaro
que gosto de me saber mulher
frente a um homem que se sabe homem,
que sei de ciência certa
que o amor
é melhor que as multi-vitaminas,
que o casal humano
é o princípio inevitável da vida,
que por isso não quero jamais liberar-me do homem;
o amo
com todas suas debilidades
e gosto de compartilhar sua teimosia
todo este amplo mundo
onde ambos somos imprescindíveis.
Não quero que me acusem de mulher tradicional
mas podem me acusar
tantas como quantas vezes queiram
de mulher.
REGRAS DO JOGO PARA OS HOMENS QUE QUEIRAM MULHERES MULHERES
(Gioconda Belli, tradução de Silvio Diogo)
I
O homem que me amar
deverá saber abrir as cortinas da pele,
encontrar a profundidade de meus olhos
e conhecer o que se aninha em mim,
a andorinha transparente da ternura.
II
O homem que me amar
não desejará possuir-me como uma mercadoria,
nem me exibir como troféu de caça,
saberá estar a meu lado
com o mesmo amor
com o qual estarei ao lado seu.
III
O amor do homem que me amar
será forte como as árvores de ceibo,
protetor e seguro como elas,
puro como uma manhã de dezembro.
IV
O homem que me amar
não duvidará de meu sorriso
nem temerá a abundância de meu cabelo,
respeitará a tristeza, o silêncio
e com carícias tocará meu ventre como violão
para que brotem música e alegria
do fundo de meu corpo.
V
O homem que me amar
poderá encontrar em mim
a rede onde descansar
do pesado fardo de suas preocupações,
a amiga com quem compartilhar seus íntimos segredos,
o lago onde flutuar
sem medo de que a âncora do compromisso
o impeça de voar quando queira ser pássaro.
de vir a ser pássaro.
VI
O homem que me amar
fará poesia com sua vida,
construindo cada dia
com o olhar posto no futuro.
VII
Acima de todas as coisas,
o homem que me amar
deverá amar o povo
não como uma palavra abstrata
tirada da manga,
mas como algo real, concreto,
a quem render homenagem com ações
e dar a vida, se necessário.
VIII
O homem que me amar
reconhecerá meu rosto na trincheira
joelhos no chão me amará
enquanto os dois disparam juntos
contra o inimigo.
IX
O amor de meu homem
não conhecerá o temor da entrega,
nem terá medo de se descobrir ante a magia da paixão
em uma praça cheia de multidões.
Poderá gritar - te amo -
ou colocar placas no alto dos edifícios
proclamando seu direito de sentir
o mais lindo e humano dos sentimentos.
X
O amor de meu homem
não fugirá das cozinhas,
nem das fraldas do filho,
será como um vento fresco
levando consigo, entre nuvens de sonho e de passado,
as fraquezas que, durante séculos, nos mantiveram separados
como seres de distintas estaturas.
XI
O amor de meu homem
não desejará rotular ou etiquetar,
me dará ar, espaço,
alimento para crescer e ser melhor,
como uma Revolução
que faz de cada dia
o começo de uma nova vitória.
NÃO ME ARREPENDO DE NADA
(Gioconda Belli, tradução base de Silvio Diogo, versão de Jeff Vasques)
Daqui, da mulher que sou,
às vezes me entrego a contemplar
aquelas que eu podia ter sido;
as mulheres primorosas,
modelo de virtudes,
trabalhadoras boas esposas
que minha mãe desejou para mim.
Não sei por quê
passei minha vida inteira me rebelando
contra elas
odeio suas ameaças em meu corpo
a culpa que suas vidas impecáveis
por um estranho feitiço,
me inspiram;
revolto-me contra seus bons ofícios,
os prantos noturnos sob o travesseiro,
às escondidas do marido
o pudor da nudez, por baixo da passada e engomada
roupa íntima.
Estas mulheres, no entanto,
olham-me do interior de seus espelhos,
levantam um dedo acusador
e, às vezes, cedo a seus olhares de reprimenda
e gostaria de ter a aceitação universal,
ser a “boa menina”, a “mulher decente”
a impecável Gioconda,
tirar dez em conduta
com o partido, o estado, as amizades,
minha família, meus filhos e todos os demais seres
que, abundantes, povoam este nosso mundo.
Nesta contradição invisível
entre o que deveria ter sido e o que é
travei numerosas batalhas mortais,
batalhas inúteis delas contra mim
- elas contra mim que sou eu mesma -
Com a “psique dolorida” despenteio-me
transgredindo ancestrais programações
desgarrando-me das mulheres internas
que, desde a infância, torcem o rosto para mim
pois não me encaixo no molde perfeito de seus sonhos,
pois me atrevo a ser esta louca falível, terna e vulnerável
que se apaixona feito puta triste
por causas justas, homens bonitos e palavras brincalhonas
pois, já adulta, atrevi-me a viver a infância proibida,
e fiz amor sobre escrivaninhas em horários comerciais
e rompi laços invioláveis e me atrevi a desfrutar
o corpo são e sinuoso com que os genes
de todos os meus ancestrais me dotaram.
Não culpo ninguém. Melhor, agradeço a eles pelos dons.
Não me arrependo de nada, como disse Edith Piaf.
Porém, nos poços escuros em que me afundo;
nas manhãs em que, ao entreabrir os olhos,
sinto as lágrimas fazerem força
apesar da felicidade
que finalmente conquistei
rompendo estratos e camadas de rocha terciária
e quaternária,
vejo minhas outras mulheres sentadas no vestíbulo
fitando-me com olhos doídos
e me culpe pela felicidade.
Irracionais boas meninas
rodeiam-me e desfilam suas canções infantis contra mim;
contra esta mulher
feita
plena
esta mulher de peitos em peito
e largos quadris
que, por minha mãe e contra ela,
eu gosto de ser.
A MÃE
A mãe
trocou de roupa.
A saia virou calça;
os sapatos, botas;
a pasta, mochila.
Já não canta cantigas de ninar,
canta canções de protesto.
Vai despenteada e chorando
um amor que a envolve e assombra.
Já não ama somente seus filhos,
nem se dá somente a seus filhos.
Leva suspensas nos peitos
milhares de bocas famintas.
É mãe de meninos maltrapilhos
de molequinhos que rodam pião em calçadas empoeiradas.
pariu a si mesma
sentindo-se — às vezes —
incapaz de suportar tanto amor sobre os ombros,
pensando no fruto de sua carne
— distante e sozinho —
chamando por ela na noite sem resposta,
enquanto ela responde a outros gritos,
a muitos gritos,
mas sempre pensando no grito solitário de sua carne
que é um grito a mais nessa gritaria de povo que a chama
e lhe arranca até os próprios filhos
de seus braços.
———-
SANGUE DE OUTROS
Leio os poemas dos mortos
eu que estou viva
eu que vivi para rir e chorar
e gritar pátria Livre ou Morrer
em cima de um caminhão
no dia em que chegamos a Manágua.
Leio os poemas dos mortos,
vejo as formigas sobre a grama,
meus pés descalços,
teu cabelo liso,
costas curvadas numa reunião.
Leio os poemas dos mortos
e sinto que este sangue com o qual nos amamos
não nos pertence.
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SEM PALAVRAS
inventei uma grande árvore,
maior que um homem,
maior que uma casa,
maior que uma última esperança.
Fiquei com ela durante anos
sob sua sombra
esperando que falasse comigo.
Eu lhe cantava canções,
abraçava-a,
coçava sua rugosa casca
entremeada de samambaias,
meu riso rebentava flores em seus galhos,
e a cada gesto meu cresciam-lhe folhas,
brotavam-lhe frutas…
Era minha como nunca nada foi meu,
mas não falava comigo.
Eu vivia atenta aos ruídos dela,
ouvindo seu suave esvoaçar de borboleta,
seu rangido de animal da selva
e sonhava com a voz dela como um lindo canto,
mas não falava comigo.
noites inteiras chorei a seus pés,
apertada entre suas raízes,
sentindo seus braços sobre mim,
vendo-a erguida sobre mim,
sabendo que pensava em mim,
mas não falava comigo…
Aprendi a cantar como pássaro,
a acender-me como vaga-lume,
a relinchar feito cavalo.
Às vezes me enfurecia e fazia com que caíssem
todas as suas folhas,
deixava-a nua e envergonhada
diante dos guanacastes,
esperando que — talvez — entendesse ter sido por mal,
como alguns homens,
mas nada.
Aprendi tantas coisas para poder lhe falar,
despi-me de tantas outras necessidades
que esqueci até como eu me chamava,
esqueci de onde eu vinha,
esqueci a que espécie animal eu pertencia
e fiquei muda e sempre-viva
— esperançosa —
entre seus galhos.
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EROS É A ÁGUA
Entre tuas pernas
o mar me mostra estranhos arrecifes
rochas erguidas corais altaneiros
contra a minha gruta de ostras concha madrepérola
teu molusco de sal persegue a corrente
a água cruza inventa barbatanas em mim
mar noturno de luas submersas
teu ondular brusco de polvo excitado
acelera minhas brânquias os latejos de esponja
os cavalos minúsculos flutuando entre gemidos
enredados em longos pistilos de medusa.
Amor entre golfinhos
dando saltos te lanças sobre meu flanco leve
te recebo sem ruído te olho entre borbulhas
teu riso envolvo com minha boca espuma
leveza da água oxigênio de tua vegetação de clorofila
a coroa de lua abre espaço ao oceano.
Dos olhos prateados
flui longo olhar derradeiro
e nos levantamos do corpo aquático
somos carne outra vez
uma mulher e um homem
entre as rochas.
CONSELHOS PARA A MULHER FORTE
Se és uma mulher forte
te protejas das hordas que desejarão
almoçar teu coração.
Eles usam todos os disfarces dos carnavais da terra:
se vestem como culpas, como oportunidades, como preços que se precisa pagar.
Te cutucam a alma; metem o aço de seus olhares ou de seus prantos
até o mais profundo do magma de tua essência
não para alumbrar-se com teu fogo
senão para apagar a paixão
a erudição de tuas fantasias.
Se és uma mulher forte
tens que saber que o ar te nutre
carrega também parasitas, varejeiras,
miúdos insetos que buscarão se alojar em teu sangue
e se nutrir do quanto é sólido e grande em ti.
Não percas a compaixão, mas teme tudo que te conduz
a negar-te a palavra, a esconder quem és,
tudo que te obrigue a abrandar-se
e te prometa um reino terrestre em troca
de um sorriso complacente.
Se és uma mulher forte, prepara-te para a batalha:
aprende a estar sozinha
a dormir na mais absoluta escuridão sem medo
que ninguém te lance cordas quando rugir a tormenta
a nadar contra a corrente.
Treine-se nos exercícios da reflexão e do intelecto.
Lê, faz o amor a ti mesma, constrói teu castelo
o rodeia de fossos profundos
mas lhe faça amplas portas e janelas.
É fundamental que cultives enormes amizades
que os que te rodeiam e queiram saibam o que és
que te faças um círculo de fogueiras e acendas no centro de tua habitação
uma estufa sempre ardente de onde se mantenha o fervor de teus sonhos.
Se és uma mulher forte
se proteja com palavras e árvores
e invoca a memória de mulheres antigas.
Saberás que és um campo magnético
até onde viajarão uivando os pregos enferrujados
e o óxido mortal de todos os naufrágios.
Ampara, msa te ampara primeiro.
Guarda as distâncias.
Te constrói. Te cuida.
Entesoura teu poder.
O defenda.
O faça por fazer.
Te peço em nome de todas nós.
(tradução de Jeff Vasques)
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