quinta-feira, 4 de abril de 2019

Clitemnestra corta alma da plateia

Clitemnestra corta a alma da plateia
nota de quem foi impactada pelo espetáculo



Clitemnestra arrebata o intento primordial do Teatro que é expurgar, purificar-se através da cena vista
e sentida, de impactar a plateia; como se a alma nos fosse retalhada pelos cacos de vidro
que compõem o cenário - décor aparentemente limítrofe da cena que se
assemelha aos cacos deixados metaforicamente por cada um na plateia,
porque a encenação nos enleva e nos corta; libertadoramente nos corta.


  1. O espaço cênico

Fortuitamente, a apresentação no espaço da livraria foi um adicional; os livros, eram testemunhas
não silentes do drama de Clitemnestra.
E é o particular nunca contado da mãe de Electra pouco e mal mencionada por Eurípedes,
na peça teatral que leva o nome da filha (Clitemnestra não possui mais que dezesseis falas,
sendo somente uma significativa, as demais não passam de réplicas a Electra),
e cujos motivos a teriam levado a cometer o assassinato do próprio marido que nos é revelado
  segundo a  Crisálida  através de uma pesquisa extensiva e muitas vezes frustrada
por faltarem elementos, obrigando o grupo de pesquisa a preencher as lacunas
com o que não encontraram nos livros .
Então, uma ação teatral que se iniciou através das pesquisas bibliográficas
só teria muita rima na poesia dessa encenação realizada em uma livraria
– não obstante a acústica não auxiliar o alcance vocal.
A Livraria Lamarca possui uma estrutura quase que de galpão, facilitando
o aproveitamento de suas possibilidades espaciais em consonância
com o que se pretende promover, em termos de eventos.
E o espaço limitado de ação da atriz é demarcado com um círculo o chão
(não poderia ser outra forma; circularidade, continuidade – empresta a ideia
de que esse tema, aparentemente antigo, ainda continua nos ciclos da vida)
feito de cacos de vidros   (metaforicamente os pedaços da alma?
e se for, seriam da personagem ou da plateia?) o que causa
certa angústia em desavisados (ou desastrados, como esta relatora que vos fala),
certa apreensão – o medo de sermos cortados, a dor de ser cortado.
E é dentro desse círculo de cacos de vidros que a atriz se expande, se arroja, se joga!
na interpretatividade cênica sem parecer se aperceber do perigo que a ronda.
Mas não é sempre assim, na vida?   não agimos segundo nossas próprias paixões
e certezas sem nos darmos conta do perigo que é viver?


  1. O texto teatral


Em Clitemnestra, o monólogo poderia causar alguma confusão
pela polifonia presente: são “vozes” múltiplas ali presentes, ora a mãe, ora a esposa,
ora o coro (ou o ego freudiano?), ora a narradora    nem as parcas seriam tão metamorfas assim!
A alma fragmentada da protagonista é cortada e seus pedaços arrancados e jogados sem pudor
aos pés da plateia; mas cuidado para não pisar! Os pedaços de Clitemnestra cortam fundo,
cortam até a alma. E há a parte de melos, a canção em que a atriz canta e arrasta a plateia,
convidando a entenderem as motivações de Clitemnestra, a perdoarem-na, a …
talvez!… aprender com ela a não se deixar levar tão forte pela paixão.
E a paixão avassaladora da nossa anti-heroína transforma-a em um protótipo de heroína.
O texto não nos vem como um pedido de desculpas, é autêntico demais para ser piegas.
É apenas o depoimento de uma mulher que, como tantas outras, sofre por sua passionalidade
e, devido a isso, fez escolhas erradas.
Percebemos assim o texto de tal forma que, ao fim, estamos suspensos à espera
da próxima fala de Clitemnestra.
Somos todos Clitemnestra.
      1. #leiaTeatro



  1. A interpretação



Sedução.
A atriz, Juliana Veras, consegue seduzir de todas as formas possíveis: seu figurino, cuja parte
transforma-se em um co-protagonista mudo, vermelho-sangue com detalhes escuros já é esteticamente
sedutor por si só. A maquiagem realçando seu olhar dramático, a expressão corporal enquanto
extensão passional de suas falas, a expressão vocal musicalmente posta à prova
um conjunto harmonizando sedução e verdade.
Todo texto tem uma intenção oculta. A Verdade que se deseja incutir no espírito da plateia é que esta absorva,
apreenda essa verdade sussurrada.
Quando se acredita no que se faz e no que se diz como verdadeiro é que se inicia o verdadeiro
tour de force: seduzir a plateia para acompanhar o ator aonde quer que o ator vá.
Seduzir é um convite feito lançando mão de todos esses artifícios, dura e exaustivamente praticados,  
para que a plateia sinta e sofra   junto a verdade sussurrada pelo elenco.
E Clitemnestra sussurra sedutoramente.
Talvez porque as maiores verdades são melhor ouvidas quando sussurradas.


  1. A reação da plateia

Apreensão. Temor. Surpresa. Enlevo. Euforia. Identificação.
A plateia sofremos uma subida na rampa do reconhecimento; porque nos reconhecemos
(ou reconhecemos o Outro) em Clitemnestra.
O temor inicial causado pelo cenário é substituído pelo temor do que acontecerá com
aquela personagem tão trágica, seguido pela surpresa de nos ser revelada a essência do feminino
e, nesse momento, somos enlevados por sua personalidade magnética (todo aquele que é servil
às próprias paixões nos causa atração; nos é irresistível), tornamo-nos eufóricos com a ideia
de que seu marido retorne, e por fim, identificamo-nos com a rejeição que ela sofre e a revolta que ela sente.
A plateia, quer pela proximidade com a cena, quer pelo cenário, quer pela participação inaudita
em uma das canções, quer por todos esses fatores concomitantemente, acaba não se sentindo
apenas um elemento passivo, mas participativo; o que, convenhamos, pode facilitar em muito
a transferência sofrida.
Saímos da peça sabendo quem é, afinal de contas, Clitemnestra. Mas o mais importante:
saímos sabendo a que ponto uma paixão pode ser perigosa para nós mesmos.
Clitemnestra, nossa amiga mais recente, aquela que nos confidenciou seus mais secretos pensamentos,
ela nos ensina uma verdade   a do perigo iminente em se deixar sucumbir à paixão
e às suas decorrências.
Uma verdade que nos foi sussurrada e cortou fundo nossas almas.

Posso deduzir que o grupo de pesquisa Crisálida tenha estudado o teatro grego
no intuito de emprestar à sua nova encenação um verdadeiro tom de tragédia grega.
O que nos leva a parabenizar, mais uma vez, esse espetáculo pelo apuro e cuidado
com que foi planeado e construído.
Crisálida, a vocês e à plateia, meu sonoro e emblemático Evoé!


Tetê Macambira
#leiaTeatro


no aguardo da Ficha Técnica e os créditos pela foto gentilmente cedida

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