domingo, 24 de março de 2019

Romance do Pavão Misterioso

Da esquerda para a direita: Sílvio Holanda, Tetê Macambira, Aristides Ribeiro (em pé), Patrícia Cacau, Monteiro e Arusha Oliveira.


 Nosso primeiro encontro foi acalorado! Questões múltiplas foram levantadas ao redor da mesa entre o aroma do café quentinho e a troca de informações.

Por que a ação narrativa se passa em Turquia e Grécia?
Por que esses turcos e gregos têm nomes tão brasileiros?
Esse pai da Creusa é ciumento demais da própria filha. Por que ele não queria casar a filha?
Edmundo é artista, inventor ou alquimista?
Não é estranho uma produção sertaneja dessa não fazer nenhuma menção à religião?

Essas foram algumas das questões levantadas; respostas nem sempre conseguimos, mas debate!!!
Ohohohoh teeeeeeve, sim!



Sobre o folhetim Romance do Pavão Misterioso

No domínio público, consta como autor João Melquíades Ferreira,   mas há controvérsias!, pois outras tipografias grafam o nome de José Carmelo de Melo Resende - sendo que pesquisadores defendem este último ser o verdadeiro autor.
Guerras autorais à parte, este cordel surpreende por tratar tangencialmente (publicado em 1923) da industrialização e do uso do termo "capitalista". Embora se trate de um romance, um caso de amor, a aventura em terras exóticas (Grécia e Turquia) é atrativa e repleta de significados.
Estrutura
142 sextilhas, redondilhas maiores (heptassílabos), esquema rímico xaxaxa. 
Personagens
João Batista e Evangelista - irmãos herdeiros de uma fábrica de tecidos na Turquia.     
Creusa - beldade na Grécia.                                                                                             
Edmundo - artista e inventor na Grécia.
Enredo
O pai morre e os filhos João Batista e Evangelista assumem os negócios até que o primeiro resolve viajar e Evangelista pede que o irmão lhe traga algo bonito. João Batista atende ao pedido e traz uma foto da moça mais bonita que vira na Grécia. Evangelista apaixona-se pelo retrato e parte em busca da moça com intenção de se casar. E assim começa a aventura.
Trocamos dúvidas, e para nossa sorte a estudiosa em literatura popular Arusha Oliveira soube dirimir
apaixonadamente nossas questões. Foi le-gen-dá-rio!

Notas literárias discutidas
1 - Monteiro acredita que algum caixeiro-viajante (ou afins) possivelmente tenha contado oralmente essa história e o autor a  tenha transposto para o cordel, o que justificaria tanto os lugares exóticos da narrativa, quanto os nomes brasileiros às personagens turcas e gregas;
2 - Arusha defende o medievo caracterizando a história, em que se percebe a forte marca da oralidade, além da donzela precisando ser resgatada da guarda draconiana na figura do pai;
3 - Observância do "mágico" nos presentes dados por Edmundo: a serra azougada (que corta tudo, melhor que faca stone flavor) e o lenço enigmático (clorofórmio que não se acaba nunca, pelo visto!), ratificando que Edmundo faz o papel de sábio, em um misto de inventor e alquimista;
4 - a jornada do herói também é francamente perceptível nessa história: o herói sai de sua "zona de conforto" (de Turquia para Grécia) em busca de algo que lhe seja valioso (Creusa), busca um mentor (Edmundo) que o ajuda e lhe fornece ferramenta(s) (serra e lenço) que ajudarão o herói. O herói tem que disputar com um inimigo (pai de Creusa), corre risco de morte ou morre e volta ao ponto de partida não sendo mais o mesmo (Evangelista casa-se com Creusa).
5 - Monteiro levantou a questão da espantosa ausência de religiosidade; tema ordinário a um povo afeito às questões de Deus - tornando a obra mundana, ao que Arusha completou lembrando que era o sultão quem dá as bênçãos ao casal, afirmando que isso comprovaria o caráter medieval da obra;
6 - Cacau finalizou que essa história é um convite a se transcender o comum,  que devemos ir e ser além do que o esperado.

Esse grupo está muito lindo! Mal espero pelo próximo domingo! S2

2º encontro
Próximo domingo, 31/3 às 9h30: Peleja de Cego Aderaldo com Zé Pretinho

Zenóbia chegou tarde ao encontro, que se iniciou pontualmente às 9h30,
mas gostou da ideia e já levou o cordel para o próximo domingo

Zenóbia conta que, aos 7 anos, ela era uma concorrida ledora dos cordéis entre os moradores de Unha de Gato, em Ipaumirim (antiga "Lagoinha"). Quando ela chegava, anunciavam logo entre si: "Zenóbia chegou! Zenóbia chegou!". E acorriam  para a leitura pública dos versos dos livrinhos. "Os Sofrimentos de Alzira" (Leandro Gomes de Barros Leal), conta-nos ela, era o mais difícil; todos chorando e ela ali, tendo que se segurar.
Zenóbia, cujo nome vem do grego significando "vida dada por Deus", aceitou graciosamente o desafio de voltar aos tempos de ledora e nos brindar com uma leitura de algumas estrofes no próximo domingo, 31 de março, a partir das 9h30.
Essa partilha não se pode perder! Vamos prestigiar?



Clube de Leitura Dona Chita Café 

rua Desembargador Praxedes, 1995 - Vila União

Domingos, das 9h30 às 11h


Contato: WhatsApp 91 9 83322267 (Tetê Macambira)

Clube de Leitura Dona Chita



Por que o Dona Chita?

Voltando aos Clubes de Leitura, encontrei no Dona Chita Café [rua Desembargador Praxedes, 1995 - Vila União, Fortaleza/CE] um espaço aconchegante e convidativo. O proprietário do espaço, Sílvio Holanda, é um amante das artes, o que tornou mais que possível usar o local como base de operações.
Ele ainda me fez conhecer Patrícia Cacau, poetisa, articuladora literária e editora [Sangre Editorial] que também já tinha tido ideia de promover um sarau no café, seguindo a trilha do Sarau Caravelle (cuja lateral é defronte ao café, no segundo domingo de cada mês, das 17h às 18h30 - restaurante Caravelle, av. Luciano Carneiro,1936). Mas Cacau embarcou, com toda a animação que lhe é peculiar, nesse formato de Clube de Leitura. Formou!

Por que cordel?

E ideia para a primeira  escolha tiramos do próprio Dona Chita (que também é loja e vende produtos selecionados do sertão e  naturais) e de seu repertório de cordéis. Procuramos saber os cordéis mais afamados e demos com Romance do Pavão Misterioso e o Peleja de Cego Aderaldo com Zé Pretinho. A fim de começarmos logo em março e driblar a tal da procrastinação, partiu blábláblá sobre cordel em março mesmo, e escolhermos coletivamente a próxima vítima, ops!, digo, o próximo livro. (disfarça)
A-de-mais!... Cordel é cultura nordestina, para algumas pessoas é o primeiro contato literário que se teve na vida. Cordel é um mix de gêneros: narrativo, poético, filosófico, jornalístico, ... Sua leitura é acessível.
Valia demais extrair o máximo de uma obra aparentemente tão simples, analisarmos, destrincharmos verso por  verso tudo o que pudéssemos extrair.
Sem falar que é perfeitamente possível ler um cordel no prazo de uma semana.



quinta-feira, 7 de março de 2019

[CAHIERS II de Albert Camus] janeiro/fevereiro - pág. 12


Refaz-se o mundo sem que se levante

a bunda de sua poltrona.

[dando continuidade à tradução, que se iniciou na semana passada com a página 11]
Fonte da imagem: https://www.franceculture.fr/emissions/albert-camus-la-pensee-de-midi/

pág. 12

Tólstoi;
Melville;
Referências estrangeiras:    Daniel de Foe;
Cervantes.

Retz: “O senhor Duque de Orléans tinha, à exceção da coragem, tudo que fosse necessário a um homem honesto.”

Os cavalheiros da Fronde encontraram um batalhão, tendo à espada um crucifixo que gritava: “Aqui está o inimigo!”

Existem muitas razões para a oficial hostilidade contra a Inglaterra (boas ou más, políticas ou não). No entanto, mal se fala de um dos piores [13] motivos: a raiva e o baixo desejo de ver sucumbir aquele que lhe ousa resistir à força que foi esmagado de nós contra nós mesmos.
O francês guardou o hábito e as tradições da revolução¹. Não lhe falta nada mais que o estômago: tornou-se funcionário público, pequeno burguês e serviçal. O golpe de gênio foi tornar isso em revolucionário legalizado. Ele conspira com a autorização oficial. Refaz-se o mundo sem que se levante a bunda de sua poltrona.



O manuscrito constava como o grande pensamento. Um segundo texto corrigido  ‒ mas não da mão de Camus ‒ consta revolução. Deduzimos que essa mudança foi feita por ele sob a forma de ditado.]

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