quarta-feira, 15 de maio de 2019

Por assim dizer (Jean-Pierre Rosnay)

POR ASSIM DIZER

Por assim dizer
Nós estamos vivos
Nós passamos
O sol se levanta
As macieiras florescem
deflorescem e reflorescem
Por assim dizer
nós estamos no mundo
Nós temos um coração
Nós somos únicos
Unicamente sós
Por assim dizer
Nós experimentamos sentimentos
diversos e contraditórios
e alguns são bem violentos
e nós caminhamos e aguardamos
e nós buscamos compreender
por que e como
temos que viver e morrer
Por assim dizer


[Jean-Pierre Rosnay - tradução minha]

terça-feira, 14 de maio de 2019

A MULHER IDOSA OLHA PARA BAIXO (Hélène Sanguinetti)

A MULHER IDOSA OLHA PARA BAIXO

A mulher idosa olha para baixo, as pessoas, uma moça, espera seu ônibus para voltar para casa, ao seu imóvel, bem longe depois do mar, certamente.
A moça não fuma, ela chora, ela aperta seus dedos em um lenço enrolado em uma bola, como uma harpia, suas mangas, sua dor, não tenho mais bombons, e a moça já é muito grande, lógico que ela se envergonharia, eu deveria bater no vidro para que ela erguesse a cabeça e me visse?
Que ela a visse.
Há no bufê biscoitos e rum.
Biscoitos e rum.
Eu imploro: sirva-se.
Eu imploro.
É muito bom com açúcar. Fica bom, ganha uma cor.
Como abrir o o mais essencial do coração de um homem?
Respire,
ainda,
ainda.
É para melhor se jogar
a cabeça baixa
sob as árvores.
Se todo o sangue escapasse de todos os corpos,
de todos,
se fossem reunidos,
que espaço seria preenchido, tão vasto
quanto o mar?
Todo o sangue, onde que seria contido?
Não haveria mais ninguém para medir e contar isso. Haveria apenas o mar desconhecido, vermelho-escuro, muito mais vermelho que o Mar vermelho.
Que não passa do nome.
Hélène Sanguinetti
Texto inédito para Terres de femmes (D.R.)

[link do perfil da poetisa no facebook: https://www.facebook.com/profile.php?id=100008672734839 ]


LA VIEILLE FEMME REGARDE EN BAS
La vieille femme regarde en bas, les gens, une fille, attend son bus pour rentrer chez elle, dans son immeuble, là-bas derrière la mer, sans doute.
La fille ne fumait pas, elle pleurait, elle serrait ses doigts sur un mouchoir roulé en boule, en charpie, ses manches, sa peine, je n’ai plus de bonbons, et la fille est trop grande, elle se vexerait bien sûr, je pourrais taper sur la vitre pour qu'elle lève la tête, qu'elle me voie ?
Qu'elle la voie.
Il y a dans le buffet des biscuits et du rhum.
Des biscuits et du rhum.
Je vous en prie, servez-vous.
Je vous en prie.
C'est très bon avec un sucre. Ça remonte, ça donne de la couleur.
Comment ouvrir le plus essentiel du cœur de l'homme ?
Respire,
encore,
encore.
C'est pour mieux se jeter
la tête en bas
dans les arbres.
Si tout le sang s'échappait de tous les corps,
de tous,
si on le recueillait,
quel espace remplirait-il, aussi vaste
qu'une mer ?
Tout le sang, dans quoi contiendrait-il ?
Il ne resterait personne pour mesurer et le dire. Il resterait la mer inconnue, rouge sombre, beaucoup plus rouge que la Mer rouge.
Qui n'a qu'un nom.
Hélène Sanguinetti
Texte inédit pour Terres de femmes (D.R.)
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domingo, 12 de maio de 2019

A Mãe (Lydia Palledec)

A MÃE



Manhã cedo

a mãe levanta as rugas
de sua pele
os olhos se demoram
sobre a redondeza
da lua

Sozinha em sua cozinha
ela ama olhar a lua
o aroma do café
escurece o espaço

nenhum murmúrio
vem atrapalhar
o nascer do sol 

Sobre a mesa
atravessada de luz
a impressão de dedos
das crianças
lhe afaga a memória

[...]

Com a luz do dia
Ela mede o peso
dos sorrisos
e pela janela fechada
ela surpreende o reflexo
de seus lábios.

Lydia Palledec






LA MÈRE

Tôt le matin
la mère lève les plis
de sa peau
les yeux s’attardent
sur la rondeur
de la lune


Seule dans sa cuisine
elle aime regarder la lune
l’odeur du café
assombrit la pièce


pas un murmure
ne vient troubler
le lever du jour

elle aime regarder la lune
l’odeur du café
assombrit la pièce

pas un murmure
ne vient troubler
le lever du jour


Sur la table traversée
de lumière
l’empre
inte de doigts
des enfants
caresse sa mémoire




[…]



De la lumière du jour
elle mesure le poids
des sourires
et dans la fenêtre close
surprend le reflet
de ses lèvres




Lydia Padellec




poèmes inédits pour Terres de femmes (D.R.).

NOTE d’AP : les poèmes ci-dessus ont fait l’objet, en mars 2014, d’une publication en recueil : Entre l’herbe et son ombre (Titre provisoire), éditions Henry|Les Écrits du Nord. Prix des Trouvères des Lycéens 2014.

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sábado, 11 de maio de 2019

À Morfina



À morfina
Pega, se necessário for, doutor, as asas de Mercúrio
Para me trazer logo teu bálsamo precioso!
O momento da picada chegou
que, deste leito de enfermo, me levará aos céus.
Obrigado, doutor, obrigado! pouco importa a cura
Agora se prolongue por dias aborrecidos!
O divino bálsamo está aqui, tão divino que Epicuro
Deveria tê-lo inventado para o uso dos Deuses!
Já a sinto circular, penetrando-me!
No espírito e no corpo inefável bem-estar,
é a absoluta calma na serenidade.
Ah! Fure-me cem vezes tua fina agulha
E eu a abençoarei cem vezes, Santa Morfina,
Da qual Esculápio deveria ter feito uma deusa.
[Júlio Verne]
[tradução minha]


À morphine
Prends, s'il le faut, docteur, les ailes de Mercure
Pour m'apporter plus tôt ton baume précieux !
Le moment est venu de faire la piqûre
Qui, de ce lit d'enfer, m'enlève vers les cieux.
Merci, docteur, merci ! qu'importe que la cureDa
Maintenant se prolonge en des jours ennuyeux !
Le divin baume est là, si divin qu'Epicure
Aurait dû l'inventer pour l'usage des Dieux !
Je le sens qui circule, qui me pénètre !
De l'esprit et du corps ineffable bien-être,
c'est le calme absolu dans la sérénité.
Ah ! perce-moi cent fois de ton aiguille fine
Et je te bénirai cent fois, Sainte Morphine,
Dont Esculape eût fait une Divinité.