Clube de Leitura Dona Chita
Peleja do Cego Aderaldo com Zé Pretinho
de Firmino Teixeira do Amaral
Domingo, 31 de março de 2019 – das 9h30 às 11h
Dona Chita Café & Loja – Des. Praxedes, 199, Fortaleza/CE
é 1 dedo, é 1 dado, é 1 dia
A Peleja Inexistente
Arusha concluíra a última reunião do Clube de Leitura Dona Chita
(24 de março) jogando essa bomba no meio da mesa
sobre nossa próxima leitura, A Peleja do Cego Aderaldo com Zé Pretinho:
Essa peleja não aconteceu.

Assim dito, assim lido – e na reunião debatido.
Eis alguns dos tópicos levantados a fim de defender que essa peleja é,
de fato, uma belíssima de uma ficção:
a) A peleja é um embate feito na cantoria e que exige alguns princípios.
O cordel pode ser de caráter documental ou ficcional, assim como
há outro cordel de Peleja contra o diabo – peleja esta que ninguém
há de crer como documentário, mas ficção.
Portanto, há antecedentes comprovando a possibilidade dessa teoria.
b) O narrador não é o Cego Aderaldo nem Zé Pretinho,
mas uma terceira pessoa, Firmino. E como é que ele
teria decorado toda a peleja? E embora as primeiras sextilhas
anunciem o Cego Aderaldo como narrador, o autor do cordel é Firmino.
Portanto...
c) Saudação e excelência: os cantadores saúdam o dono da propriedade
em que estão, os convivas, elogiam e agradecem. No cordel,
quem apresenta é o narrador. Os cantadores já começam
em um primeiro embate, da parte do Zé Pretinho.
d) A peleja é uma das cantorias, um dos gêneros de cantoria
que foram inseridos no cordel, não o contrário
– o que torna mais plausível Firmino ter se apropriado desse fato
para emprestar verossimilhança à sua narrativa.
e) Zé Pretinho inexiste, não há uma só foto ou nenhum outro relato
senão esse de Firmino (ah! por isso estranhei o Google
não me ter acenado com nada desse moço!), o que se pressupõe
que tenha sido uma criação icônica para prestigiar o Piauí,
desprovido de cantadores afamados. Não há nenhum outro registro
de Zé Pretinho em qualquer outro meio. Tudo leva a crer
que se criou uma “mitologia” dessa personagem, inclusive
deram-lhe descendência: Cego Aderaldo teria tido peleja
contra o filho de Zé Pretinho e, obviamente depois, o neto.
Curiosidade: Cego Aderaldo teria se desculpado pelas ofensas
racistas dessa peleja – dando continuidade à mitologia criada.
f) Quem decide a vitória da peleja é a plateia e, no caso do cordel,
foi o cordelista-narrador quem decidiu.
Com todos esses itens debatidos, ficamos quase convictos
de que essa peleja, na verdade, não passa de uma fabulosa mitologia
criada pela cantoria piauiense.

Pelejar é boxear com as palavras
Uma das práticas da peleja era insultar o oponente, nem sempre
por pré-conceito do cantador, mas lançava mão do preconceito
da sociedade porquanto o objetivo real fosse desestabilizá-lo e fazê-lo,
por conseguinte, falhar na peleja − ganhar a peleja era o fim
que justificaria os meios.
Pelejar é tentar levar o oponente a nocaute, a beijar a lona
através das palavras. E, tal qual os boxeadores, eles não se embatem
por questões particulares de desagrado, apenas
para provar quem se sai melhor naquele embate.
No caso da Peleja de Cego Aderaldo com Zé Pretinho em estudo,
e lembrando-se que se estava em 1910, a poucos anos
da libertação dos escravos, portanto, o preconceito racial
era forte e quase cultural. Denegrir Zé Pretinho foi dar voz
ao que a sociedade da época repetia: criticar a aparência física dele,
fazer associação do elemento negro ao diabo,
remeter à situação de escravagismo, e por aí vai…
E a pergunta que não quer calar e não teremos resposta é:
Firmino, o autor, teria feito uma catarse dos próprios traumas?
- mas essa é uma questão além do cordel em análise.

Fábula da arrogância versus a humildade
O que não se pode, no entanto, deixar de se levantar é a intencionalidade
desse cordel, considerado um dos dez melhores cordéis de todos
os tempos: que se trata, na realidade, de uma bem construída fábula
em que os valores morais representados são a arrogância
na figura prepotente e orgulhosa/ vaidosa de Zé Pretinho
e a humildade na pessoa de Cego Aderaldo.
No fim das contas, pode bem ser uma peleja emblemática
da arrogância típica da elite (lembrando que Zé Pretinho vinha ajaezado,
todo dândi, boa roupa, viola enfeitada com fitas, e pôs os anéis da aposta
nos dedos) contra a humilde esperteza do povo (Cego Aderaldo é cego,
“cego amarelo”, pobre, humilhado, a quem olham com desconfiança
de que vá cometer algum erro de cálculo).
Vale ressaltar que a aparência “inferior” de Cego Aderaldo, somada
ao seu discurso apaziguador no início da peleja atraem as simpatias
do leitor; porque sempre torcemos pelo mais fraco
e que se comporte corretamente, apesar de todas as previsões contrárias.
Há pelejas urbanas
Sim, pelejas existem – e até hoje. Não é mito, nem mitologia,
nem conto da Carochinha. Nas funduras dos sertões os cantadores
ainda se apresentam em feiras, no meio do povo, para a graça
e agrado do povo. Cantam, pelejam, fazem repente
e se atualizam com os assuntos atuais.
Isso sem contar que há modos urbanos de pelejar,
versões urbanoides que muito se assemelham
a esse estilo de cantoria, posto que são embates
em poesia feitas de repente e ganha aquele
que não titubear, não gaguejar, não tropeçar
na rapidez da construção poética, senão vejamos:
hip-hop – batalhas
samba – partido alto
E o que significaria o trava-línguas 1 dedo, 1 dado, 1 dia?
Professor e cordelista Stélio Torquato Lima, obteve essa resposta
de um cantador:
1 dedo = 1 dedo de prosa
1 dado = dados, conteúdos
1 dia = o momento, o instante
Resumindo: 1 dedo, 1 dado, 1 dia é o que fazemos quando
nos reunimos: o momento em que conversamos sobre algum assunto.
Simples – e lindo! – assim.
E é com esse epigrama que nos despedimos:
Gratidão por este 1 dedo, 1 dado, 1 dia de muita alegria !
Agradecimentos especiais
à presença dos estudiosos da literatura popular
Stélio Torquato de Lima e Arusha Oliveira.
Sem eles, nossa nota literária coletiva não teria sido tão rica.
Gratiluz pela generosidade em compartilhar seus estudos com desapego e prazer. 1 dado de amor, 1 dedo de ler, 1 dia de prazer
Próxima leitura – mês de abril
Boca do Inferno, de Ana Miranda

Obra selecionada pelos leitores:
Arusha Oliveira − Beto Gaudêncio − Fátima Mariano − Patrícia Cacau
Sílvio Holanda − Tetê Macambira − Wosley Nogueira