quinta-feira, 3 de outubro de 2019

[traduzi] Estrofes Improvisadas, Li Tai-Pei

ESTROFES IMPROVISADAS



print do pdf da folha de rosto do livro "Poesias da época dos Thang"
[Li Tai-Pei]

I

(Vê) as nuvens, (ele) pensa no vestido (dela); (vê) as flores, (ele) pensa no rosto (dela).
O vento da primavera sopra sobre a grade embalsamada; o orvalho forma-se abundantemente.
Quando não é no topo de Yu-chan (que ele a) vê,
É na volta a Yao-tai (que ele a) encontra, sob os raios da lua.


II

Um galho, todo carregado de flores, adquire um perfume mais doce ainda sob a influência do orvalho.
A fada das nuvens e da chuva não pode despertar arrependimentos aqui.
Eh! Pergunto-lhe, que memória evocar neste palácio que pode ser em paralelo?
A sedutora Fey-ien, talvez, mas só depois que ela trocou de roupa.


III

A mais célebre das flores e a mais encantadora das mulheres se uniram para encantar os olhares;
Elas fazem que um sorriso feliz nunca se apague de um rosto augusto.
Se a primavera se escoa e se vai, que lhe importa?
Apoiada, ao lado do norte, sobre a balaustrada aos doces sentidos.


primeira poesia do livro "Poesias da época dos Thang"

Livro disponível gratuitamente neste link.
[dica! - as poesias começam na pág. 145; a fortuna crítica é bem extensa]

SAINT-DENYS, Le Marquis d'Hervey (org.). Poésies de l'époque des Thang, Paris: Amyot Éditeur, 1862, pp. 145-146.




quarta-feira, 31 de julho de 2019

[Minha avó possuía um bocado de chaves] (Cécile Guivarche)

[Minha avó possuía um bocado de chaves]


Minha avó possuía um bocado de chaves
elas tilintavam nos bolsos de seu avental

a da porta de entrada
as das três fechaduras da mesma porta
a da garagem
a da pequena casa onde dormíamos
a do galinheiro
a da porta de trás
a do lugar onde ficava o barril de sidra
a do lugar das louças para casamentos e comunhões
a da casa de sua irmã
a de seu quatro cavalos-vapor
a da barreira
a de seu armário
a da porta dos toaletes
a da casa de sua enteada
a do buffet onde ela trancava as caixas de chocolate vencidas depois de tanto natais 
a do outro buffet onde ela  trancava as garrafas de vinho Calvados

eu não sei se ela tinha uma para abrir a porta de seu quarto

Cécile Guivarch



[MA GRAND-MÈRE AVAIT BEAUCOUP DE CLÉS]



Ma grand-mère avait beaucoup de clés
elles tintaient dans les poches de son tablier

celle de la porte d’entrée
celles des trois verrous de la même porte
celle du garage
celle de la petite maison où nous dormions
celle du cadenas du poulailler
celle de la porte de derrière
celle du local où se trouvait le tonneau de cidre
celle du local à vaisselle pour les mariages et les communions
celle de la maison de sa sœur
celle de sa quatre chevaux
celle de la barrière
celle du cadenas de la barrière
celle de son armoire
celle de la porte des cabinets
celle de la maison de sa belle-sœur
celle du buffet où elle enfermait les boîtes de chocolats périmés depuis plusieurs noëls
celle de l’autre buffet où elle enfermait les bouteilles de calva

je ne sais pas si elle en avait une pour ouvrir la porte de sa chambre




Cécile Guivarch 
texte inédit pour Terres de femmes (D.R.)

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Por assim dizer (Jean-Pierre Rosnay)

POR ASSIM DIZER

Por assim dizer
Nós estamos vivos
Nós passamos
O sol se levanta
As macieiras florescem
deflorescem e reflorescem
Por assim dizer
nós estamos no mundo
Nós temos um coração
Nós somos únicos
Unicamente sós
Por assim dizer
Nós experimentamos sentimentos
diversos e contraditórios
e alguns são bem violentos
e nós caminhamos e aguardamos
e nós buscamos compreender
por que e como
temos que viver e morrer
Por assim dizer


[Jean-Pierre Rosnay - tradução minha]

terça-feira, 14 de maio de 2019

A MULHER IDOSA OLHA PARA BAIXO (Hélène Sanguinetti)

A MULHER IDOSA OLHA PARA BAIXO

A mulher idosa olha para baixo, as pessoas, uma moça, espera seu ônibus para voltar para casa, ao seu imóvel, bem longe depois do mar, certamente.
A moça não fuma, ela chora, ela aperta seus dedos em um lenço enrolado em uma bola, como uma harpia, suas mangas, sua dor, não tenho mais bombons, e a moça já é muito grande, lógico que ela se envergonharia, eu deveria bater no vidro para que ela erguesse a cabeça e me visse?
Que ela a visse.
Há no bufê biscoitos e rum.
Biscoitos e rum.
Eu imploro: sirva-se.
Eu imploro.
É muito bom com açúcar. Fica bom, ganha uma cor.
Como abrir o o mais essencial do coração de um homem?
Respire,
ainda,
ainda.
É para melhor se jogar
a cabeça baixa
sob as árvores.
Se todo o sangue escapasse de todos os corpos,
de todos,
se fossem reunidos,
que espaço seria preenchido, tão vasto
quanto o mar?
Todo o sangue, onde que seria contido?
Não haveria mais ninguém para medir e contar isso. Haveria apenas o mar desconhecido, vermelho-escuro, muito mais vermelho que o Mar vermelho.
Que não passa do nome.
Hélène Sanguinetti
Texto inédito para Terres de femmes (D.R.)

[link do perfil da poetisa no facebook: https://www.facebook.com/profile.php?id=100008672734839 ]


LA VIEILLE FEMME REGARDE EN BAS
La vieille femme regarde en bas, les gens, une fille, attend son bus pour rentrer chez elle, dans son immeuble, là-bas derrière la mer, sans doute.
La fille ne fumait pas, elle pleurait, elle serrait ses doigts sur un mouchoir roulé en boule, en charpie, ses manches, sa peine, je n’ai plus de bonbons, et la fille est trop grande, elle se vexerait bien sûr, je pourrais taper sur la vitre pour qu'elle lève la tête, qu'elle me voie ?
Qu'elle la voie.
Il y a dans le buffet des biscuits et du rhum.
Des biscuits et du rhum.
Je vous en prie, servez-vous.
Je vous en prie.
C'est très bon avec un sucre. Ça remonte, ça donne de la couleur.
Comment ouvrir le plus essentiel du cœur de l'homme ?
Respire,
encore,
encore.
C'est pour mieux se jeter
la tête en bas
dans les arbres.
Si tout le sang s'échappait de tous les corps,
de tous,
si on le recueillait,
quel espace remplirait-il, aussi vaste
qu'une mer ?
Tout le sang, dans quoi contiendrait-il ?
Il ne resterait personne pour mesurer et le dire. Il resterait la mer inconnue, rouge sombre, beaucoup plus rouge que la Mer rouge.
Qui n'a qu'un nom.
Hélène Sanguinetti
Texte inédit pour Terres de femmes (D.R.)
_______

domingo, 12 de maio de 2019

A Mãe (Lydia Palledec)

A MÃE



Manhã cedo

a mãe levanta as rugas
de sua pele
os olhos se demoram
sobre a redondeza
da lua

Sozinha em sua cozinha
ela ama olhar a lua
o aroma do café
escurece o espaço

nenhum murmúrio
vem atrapalhar
o nascer do sol 

Sobre a mesa
atravessada de luz
a impressão de dedos
das crianças
lhe afaga a memória

[...]

Com a luz do dia
Ela mede o peso
dos sorrisos
e pela janela fechada
ela surpreende o reflexo
de seus lábios.

Lydia Palledec






LA MÈRE

Tôt le matin
la mère lève les plis
de sa peau
les yeux s’attardent
sur la rondeur
de la lune


Seule dans sa cuisine
elle aime regarder la lune
l’odeur du café
assombrit la pièce


pas un murmure
ne vient troubler
le lever du jour

elle aime regarder la lune
l’odeur du café
assombrit la pièce

pas un murmure
ne vient troubler
le lever du jour


Sur la table traversée
de lumière
l’empre
inte de doigts
des enfants
caresse sa mémoire




[…]



De la lumière du jour
elle mesure le poids
des sourires
et dans la fenêtre close
surprend le reflet
de ses lèvres




Lydia Padellec




poèmes inédits pour Terres de femmes (D.R.).

NOTE d’AP : les poèmes ci-dessus ont fait l’objet, en mars 2014, d’une publication en recueil : Entre l’herbe et son ombre (Titre provisoire), éditions Henry|Les Écrits du Nord. Prix des Trouvères des Lycéens 2014.

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sábado, 11 de maio de 2019

À Morfina



À morfina
Pega, se necessário for, doutor, as asas de Mercúrio
Para me trazer logo teu bálsamo precioso!
O momento da picada chegou
que, deste leito de enfermo, me levará aos céus.
Obrigado, doutor, obrigado! pouco importa a cura
Agora se prolongue por dias aborrecidos!
O divino bálsamo está aqui, tão divino que Epicuro
Deveria tê-lo inventado para o uso dos Deuses!
Já a sinto circular, penetrando-me!
No espírito e no corpo inefável bem-estar,
é a absoluta calma na serenidade.
Ah! Fure-me cem vezes tua fina agulha
E eu a abençoarei cem vezes, Santa Morfina,
Da qual Esculápio deveria ter feito uma deusa.
[Júlio Verne]
[tradução minha]


À morphine
Prends, s'il le faut, docteur, les ailes de Mercure
Pour m'apporter plus tôt ton baume précieux !
Le moment est venu de faire la piqûre
Qui, de ce lit d'enfer, m'enlève vers les cieux.
Merci, docteur, merci ! qu'importe que la cureDa
Maintenant se prolonge en des jours ennuyeux !
Le divin baume est là, si divin qu'Epicure
Aurait dû l'inventer pour l'usage des Dieux !
Je le sens qui circule, qui me pénètre !
De l'esprit et du corps ineffable bien-être,
c'est le calme absolu dans la sérénité.
Ah ! perce-moi cent fois de ton aiguille fine
Et je te bénirai cent fois, Sainte Morphine,
Dont Esculape eût fait une Divinité.

quinta-feira, 4 de abril de 2019

Clitemnestra corta alma da plateia

Clitemnestra corta a alma da plateia
nota de quem foi impactada pelo espetáculo



Clitemnestra arrebata o intento primordial do Teatro que é expurgar, purificar-se através da cena vista
e sentida, de impactar a plateia; como se a alma nos fosse retalhada pelos cacos de vidro
que compõem o cenário - décor aparentemente limítrofe da cena que se
assemelha aos cacos deixados metaforicamente por cada um na plateia,
porque a encenação nos enleva e nos corta; libertadoramente nos corta.


  1. O espaço cênico

Fortuitamente, a apresentação no espaço da livraria foi um adicional; os livros, eram testemunhas
não silentes do drama de Clitemnestra.
E é o particular nunca contado da mãe de Electra pouco e mal mencionada por Eurípedes,
na peça teatral que leva o nome da filha (Clitemnestra não possui mais que dezesseis falas,
sendo somente uma significativa, as demais não passam de réplicas a Electra),
e cujos motivos a teriam levado a cometer o assassinato do próprio marido que nos é revelado
  segundo a  Crisálida  através de uma pesquisa extensiva e muitas vezes frustrada
por faltarem elementos, obrigando o grupo de pesquisa a preencher as lacunas
com o que não encontraram nos livros .
Então, uma ação teatral que se iniciou através das pesquisas bibliográficas
só teria muita rima na poesia dessa encenação realizada em uma livraria
– não obstante a acústica não auxiliar o alcance vocal.
A Livraria Lamarca possui uma estrutura quase que de galpão, facilitando
o aproveitamento de suas possibilidades espaciais em consonância
com o que se pretende promover, em termos de eventos.
E o espaço limitado de ação da atriz é demarcado com um círculo o chão
(não poderia ser outra forma; circularidade, continuidade – empresta a ideia
de que esse tema, aparentemente antigo, ainda continua nos ciclos da vida)
feito de cacos de vidros   (metaforicamente os pedaços da alma?
e se for, seriam da personagem ou da plateia?) o que causa
certa angústia em desavisados (ou desastrados, como esta relatora que vos fala),
certa apreensão – o medo de sermos cortados, a dor de ser cortado.
E é dentro desse círculo de cacos de vidros que a atriz se expande, se arroja, se joga!
na interpretatividade cênica sem parecer se aperceber do perigo que a ronda.
Mas não é sempre assim, na vida?   não agimos segundo nossas próprias paixões
e certezas sem nos darmos conta do perigo que é viver?


  1. O texto teatral


Em Clitemnestra, o monólogo poderia causar alguma confusão
pela polifonia presente: são “vozes” múltiplas ali presentes, ora a mãe, ora a esposa,
ora o coro (ou o ego freudiano?), ora a narradora    nem as parcas seriam tão metamorfas assim!
A alma fragmentada da protagonista é cortada e seus pedaços arrancados e jogados sem pudor
aos pés da plateia; mas cuidado para não pisar! Os pedaços de Clitemnestra cortam fundo,
cortam até a alma. E há a parte de melos, a canção em que a atriz canta e arrasta a plateia,
convidando a entenderem as motivações de Clitemnestra, a perdoarem-na, a …
talvez!… aprender com ela a não se deixar levar tão forte pela paixão.
E a paixão avassaladora da nossa anti-heroína transforma-a em um protótipo de heroína.
O texto não nos vem como um pedido de desculpas, é autêntico demais para ser piegas.
É apenas o depoimento de uma mulher que, como tantas outras, sofre por sua passionalidade
e, devido a isso, fez escolhas erradas.
Percebemos assim o texto de tal forma que, ao fim, estamos suspensos à espera
da próxima fala de Clitemnestra.
Somos todos Clitemnestra.
      1. #leiaTeatro



  1. A interpretação



Sedução.
A atriz, Juliana Veras, consegue seduzir de todas as formas possíveis: seu figurino, cuja parte
transforma-se em um co-protagonista mudo, vermelho-sangue com detalhes escuros já é esteticamente
sedutor por si só. A maquiagem realçando seu olhar dramático, a expressão corporal enquanto
extensão passional de suas falas, a expressão vocal musicalmente posta à prova
um conjunto harmonizando sedução e verdade.
Todo texto tem uma intenção oculta. A Verdade que se deseja incutir no espírito da plateia é que esta absorva,
apreenda essa verdade sussurrada.
Quando se acredita no que se faz e no que se diz como verdadeiro é que se inicia o verdadeiro
tour de force: seduzir a plateia para acompanhar o ator aonde quer que o ator vá.
Seduzir é um convite feito lançando mão de todos esses artifícios, dura e exaustivamente praticados,  
para que a plateia sinta e sofra   junto a verdade sussurrada pelo elenco.
E Clitemnestra sussurra sedutoramente.
Talvez porque as maiores verdades são melhor ouvidas quando sussurradas.


  1. A reação da plateia

Apreensão. Temor. Surpresa. Enlevo. Euforia. Identificação.
A plateia sofremos uma subida na rampa do reconhecimento; porque nos reconhecemos
(ou reconhecemos o Outro) em Clitemnestra.
O temor inicial causado pelo cenário é substituído pelo temor do que acontecerá com
aquela personagem tão trágica, seguido pela surpresa de nos ser revelada a essência do feminino
e, nesse momento, somos enlevados por sua personalidade magnética (todo aquele que é servil
às próprias paixões nos causa atração; nos é irresistível), tornamo-nos eufóricos com a ideia
de que seu marido retorne, e por fim, identificamo-nos com a rejeição que ela sofre e a revolta que ela sente.
A plateia, quer pela proximidade com a cena, quer pelo cenário, quer pela participação inaudita
em uma das canções, quer por todos esses fatores concomitantemente, acaba não se sentindo
apenas um elemento passivo, mas participativo; o que, convenhamos, pode facilitar em muito
a transferência sofrida.
Saímos da peça sabendo quem é, afinal de contas, Clitemnestra. Mas o mais importante:
saímos sabendo a que ponto uma paixão pode ser perigosa para nós mesmos.
Clitemnestra, nossa amiga mais recente, aquela que nos confidenciou seus mais secretos pensamentos,
ela nos ensina uma verdade   a do perigo iminente em se deixar sucumbir à paixão
e às suas decorrências.
Uma verdade que nos foi sussurrada e cortou fundo nossas almas.

Posso deduzir que o grupo de pesquisa Crisálida tenha estudado o teatro grego
no intuito de emprestar à sua nova encenação um verdadeiro tom de tragédia grega.
O que nos leva a parabenizar, mais uma vez, esse espetáculo pelo apuro e cuidado
com que foi planeado e construído.
Crisálida, a vocês e à plateia, meu sonoro e emblemático Evoé!


Tetê Macambira
#leiaTeatro


no aguardo da Ficha Técnica e os créditos pela foto gentilmente cedida

Clube de Leitura Dona Chita - Peleja do Cego Aderaldo com Zé Pretinho - de Firmino Teixeira do Amaral

Clube de Leitura Dona Chita


Peleja do Cego Aderaldo com Zé Pretinho
de Firmino Teixeira do Amaral







Domingo, 31 de março de 2019 – das 9h30 às 11h
Dona Chita Café & Loja – Des. Praxedes, 199, Fortaleza/CE


é 1 dedo, é 1 dado, é 1 dia


      1. A Peleja Inexistente



Arusha concluíra a última reunião do Clube de Leitura Dona Chita
(24 de março) jogando essa bomba no meio da mesa
sobre nossa próxima leitura, A Peleja do Cego Aderaldo com Zé Pretinho:


Essa peleja não aconteceu.




Assim dito, assim lido – e na reunião debatido.
Eis alguns dos tópicos levantados a fim de defender que essa peleja é,
de fato, uma belíssima de uma ficção:


a) A peleja é um embate feito na cantoria e que exige alguns princípios.
O cordel pode ser de caráter documental ou ficcional, assim como
há outro cordel de Peleja contra o diabo – peleja esta que ninguém
há de crer como documentário, mas ficção.
Portanto, há antecedentes comprovando a possibilidade dessa teoria.


b) O narrador não é o Cego Aderaldo nem Zé Pretinho,
mas uma terceira pessoa, Firmino. E como é que ele
teria decorado toda a peleja? E embora as primeiras sextilhas
anunciem o Cego Aderaldo como narrador, o autor do cordel é Firmino.
Portanto...


c) Saudação e excelência: os cantadores  saúdam o dono da propriedade
em que estão, os convivas, elogiam e agradecem. No cordel,
quem apresenta é o narrador. Os cantadores já começam
em um primeiro embate, da parte do Zé Pretinho.


d) A peleja é uma das cantorias, um dos gêneros de cantoria
que foram  inseridos no cordel, não o contrário
– o que torna mais plausível Firmino ter se apropriado desse fato
para emprestar verossimilhança à sua narrativa.


e) Zé Pretinho inexiste, não há uma só foto ou nenhum outro relato
senão esse de Firmino (ah! por isso estranhei o Google
não me ter acenado com nada desse moço!), o que se pressupõe
que tenha sido uma criação icônica para prestigiar o Piauí,
desprovido de cantadores afamados. Não há nenhum outro registro
de Zé Pretinho em qualquer outro meio. Tudo leva a crer
que se criou uma “mitologia” dessa personagem, inclusive
deram-lhe descendência:  Cego Aderaldo teria tido peleja
contra o filho de Zé Pretinho e, obviamente depois, o neto.


Curiosidade: Cego Aderaldo teria se desculpado pelas ofensas
racistas dessa peleja – dando continuidade à mitologia criada.


f) Quem decide a vitória da peleja é a plateia e, no caso do cordel,
foi o cordelista-narrador quem decidiu.


Com todos esses itens debatidos, ficamos quase convictos
de que essa peleja, na verdade, não passa de uma fabulosa mitologia
criada pela cantoria piauiense.




      1. Pelejar é boxear com as palavras

Uma das práticas da peleja era insultar o oponente, nem sempre
por pré-conceito do cantador, mas lançava mão do preconceito
da sociedade porquanto o objetivo real fosse desestabilizá-lo e fazê-lo,
por conseguinte, falhar na peleja  − ganhar a peleja era o fim
que justificaria os meios.


Pelejar é tentar levar o oponente a nocaute, a beijar a lona
através das palavras. E, tal qual os boxeadores, eles não se embatem
por questões particulares de desagrado, apenas
para provar quem se sai melhor naquele embate.


No caso da Peleja de Cego Aderaldo com Zé Pretinho em estudo,
e lembrando-se que se estava em 1910, a poucos anos
da libertação dos escravos, portanto, o preconceito racial
era forte e quase cultural. Denegrir Zé Pretinho foi dar voz
ao que a sociedade da época repetia: criticar a aparência física dele,
fazer associação do elemento negro ao diabo,
remeter à situação de escravagismo, e por aí vai…


E a pergunta que não quer calar e não teremos resposta é:
Firmino, o autor, teria feito uma catarse dos próprios traumas?
- mas essa é uma questão além do cordel em análise.



      1. Fábula da arrogância versus a humildade

O que não se pode, no entanto, deixar de se levantar é a intencionalidade
desse cordel, considerado um dos dez melhores cordéis de todos
os tempos: que se trata, na realidade, de uma bem construída fábula
em que os valores morais representados são a arrogância
na figura prepotente e orgulhosa/ vaidosa de Zé Pretinho
e a humildade na pessoa de Cego Aderaldo.
No fim das contas, pode bem ser uma peleja emblemática
da arrogância típica da elite (lembrando que Zé Pretinho vinha ajaezado,
todo dândi, boa roupa, viola enfeitada com fitas, e pôs os anéis da aposta
nos dedos) contra a humilde esperteza do povo (Cego Aderaldo é cego,
“cego amarelo”, pobre, humilhado, a quem olham com desconfiança
de que vá cometer algum erro de cálculo).  
Vale ressaltar que a aparência “inferior” de Cego Aderaldo, somada
ao seu discurso apaziguador no início da peleja atraem as simpatias
do leitor; porque sempre torcemos pelo mais fraco
e que se comporte corretamente, apesar de todas as previsões contrárias.





      1. Há pelejas urbanas



Sim, pelejas existem – e até hoje. Não é mito, nem mitologia,
nem conto da Carochinha. Nas funduras dos sertões os cantadores
ainda se apresentam em feiras, no meio do povo, para a graça
e agrado do povo. Cantam, pelejam, fazem repente
e se atualizam com os assuntos atuais.


Isso sem contar que há modos urbanos de pelejar,
versões urbanoides que muito se assemelham
a esse estilo de cantoria, posto que são embates
em poesia feitas de repente e ganha aquele
que não titubear, não gaguejar, não tropeçar
na rapidez da construção poética, senão vejamos:


hip-hop – batalhas
samba – partido alto





      1. E o que significaria o trava-línguas 1 dedo, 1 dado, 1 dia?

Professor e cordelista  Stélio Torquato Lima, obteve essa resposta
de um cantador:

1 dedo = 1 dedo de prosa
1 dado = dados, conteúdos
1 dia = o momento, o instante


Resumindo: 1 dedo, 1 dado, 1 dia é o que fazemos quando
nos reunimos: o momento em que conversamos sobre algum assunto.
Simples – e lindo!assim.


E é com esse epigrama que nos despedimos:
Gratidão por este 1 dedo, 1 dado, 1 dia de muita alegria !


Agradecimentos especiais

à presença dos estudiosos da literatura popular

Stélio Torquato de Lima e Arusha Oliveira.

Sem eles, nossa nota literária coletiva não teria sido tão rica.
Gratiluz pela generosidade em compartilhar seus estudos com desapego e prazer. 1 dado de amor, 1 dedo de ler, 1 dia de prazer




Próxima leitura – mês de abril
Boca do Inferno, de Ana Miranda




Obra selecionada pelos leitores:
Arusha Oliveira Beto Gaudêncio Fátima Mariano Patrícia Cacau
 Sílvio Holanda Tetê Macambira Wosley Nogueira